sábado, 16 de fevereiro de 2019

Trajetória da Psicopedagogia



A Psicopedagogia nasceu na Europa por volta do século XIX, pois surgiu de uma preocupação com os problemas que se tinha na aprendizagem. Segundo Bossa (2000) neste mesmo período, surge a psicologia independente, onde o comportamento humano era um objeto de estudo, medido e controlado nos laboratórios experimentais. Esses estudos serviram, então, para justificar as desigualdades sociais da época. Segundo Bossa (2000, p. 37)
No que tange à escola, os testes procurarão explicar as diferenças de rendimento dos alunos e o acesso diferenciado aos diversos graus de escolarização. Este conhecimento produzido cientificamente, portanto verdadeiro e único, será a base do pensamento reinante entre psicólogos e educadores a respeito das causas do fracasso escolar.
Envolvidas no fracasso escolar estavam as crianças que eram denominadas de “anormais”. Segundo Bossa (2000, p.37) “O conceito de anormalidade, aos poucos, foi sendo deslocado dos centros psiquiátricos para as escolas. A criança que não conseguia aprender era taxada como “anormal”, devido a interpretação de que a causa de seu fracasso era atribuída a alguma anomalia anatomofisiológica. ” Foi a partir desse século que teve início o interesse pelos estudos sobre pessoas com deficiências físicas, mentais e sociais, entre outros problemas que comprometiam o processo de aprendizagem dos indivíduos. Os estudos buscavam compreender esses seres humanos em suas singularidades.
            Segundo Bossa (2000) na segunda década do século XX surgem então os primeiros centros de reeducação para as crianças com déficit na aprendizagem, esses centros eram formados por diversos profissionais da área da saúde e educadores, os quais buscavam unir seus conhecimentos para diagnosticar e tratar o comportamento dos indivíduos, tanto no âmbito escolar, como em seus lares, objetivando a sua readaptação à sociedade.
Segundo Sara Paín (apud BOSSA 2000, p.39), “[...] o objetivo do tratamento psicopedagógico é o desaparecimento do sintoma e a possibilidade do sujeito aprender normalmente em condições melhores, enfatizando a relação que ele possa ter com a aprendizagem, ou seja, que o sujeito seja o agente da sua própria aprendizagem e que se aproprie do conhecimento.” Segundo Bossa (2008)
As tentativas de definição do campo psicopedagógico consideram que a psicopedagogia constitui um conjunto de práticas institucionalizadas de intervenção no campo da prevenção, seja como diagnóstico e tratamento das dificuldades de aprendizagem, seja, ainda, como intervenção específica no processo de aprendizagem escolar; portanto, uma área que estuda e trabalha com o processo de aprendizagem e os fatores que favorecem, bem como com aqueles que comprometem esse processo, gerando as dificuldades de aprendizagem. Seus domínios específicos são: o sujeito do conhecimento, o agente de transmissão e suas dimensões construtivas; logo, o sujeito-objeto da Psicopedagogia é o ser humano contextualizado em situações de aprendizagem. (p.45)
No Brasil, segundo Bossa (2000), na década de 70, foi amplamente difundido o pensamento de que os problemas de aprendizagens se davam em função de disfunção cerebral mínima (DCM). Embora a disfunção não fosse detectável em exame clínico, esse foi um dos rótulos que se utilizou para camuflar os problemas sociopsicopedagógicos. Somente na “década de 80 começa a se configurar uma teoria sócio-política a respeito do fracasso escolar e o “problema de aprendizagem escolar” passa a ser concebido como “problema de ensinagem. ” (BOSSA, 2000, p. 49)
Compreendemos então que, a Psicopedagogia é um campo interdisciplinar do saber, que busca as suas bases teóricas em diversas áreas do conhecimento, a fim de desenvolver uma formação que articule as diferentes áreas do saber e que possibilite a atuação do psicopedagogo na intervenção e prevenção dos déficits nos processos de ensino aprendizagem, Bossa (2008, p.46) nos fala que:
A ação psicopedagógica foi se estruturando na integração dos conhecimentos de Psicologia, Psicanálise, Pedagogia, Biologia, Filosofia, Linguística, Antropologia, Neurologia e tantos outros quantos se fizerem necessários para a apreensão do fenômeno que se ocupa: o processo de aprendizagem na sua singularidade, no contexto cultural e no âmbito dos fins e meios a que se destina.
A Psicopedagogia busca, então, compreender o ser em suas dificuldades e limitações, efetuando um diagnóstico das dificuldades de aprendizagens, e assim, proporcionando uma série de exercícios e atividades que lhe possibilitem desenvolver-se em todas as suas potencialidades. Para Bossa (2008), a Psicopedagogia está envolta por um diagnóstico e uma metodologia de intervenção que busca olhar o indivíduo em sua relação com o objeto de conhecimento e sua aprendizagem, e considera o sujeito e o objeto indissociáveis pois compreende o sujeito em seu contexto sócio-histórico, acreditando em um conhecimento transdisciplinar, mesmo sendo construído em um ambiente interdisciplinar.

REFERÊNCIAS
BOSSA, Nadia A. A psicopedagogia no Brasil: contribuições a partir da prática / 2.ed. – Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.
BOSSA, Nadia A. A emergência da psicopedagogia como ciência / Rev. Psicopedagogia, 2008; 25(76):43-8. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/psicoped/v25n76/v25n76a06.pdf Acesso em: 10 mai. 2018.

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